top of page

market

intelligence

for originals

O mito do milagre no empreendedorismo brasileiro

  • Foto do escritor: Vinicius Medeiros
    Vinicius Medeiros
  • 12 de mar.
  • 4 min de leitura

Uma vez, em uma conversa com um empresário de (muito) sucesso profissional, perguntei, curi

oso, sobre detalhes da história dele. Ele tinha toda a pinta de, segundo o imaginário coletivo, alguém que “chegou lá”.

Ele, meio que fingindo surpresa pela minha curiosidade (o cara já tinha palestrado sobre essa história dezenas de vezes), me contou sobre seus percalços com o brilho nos olhos que só se vê em quem valoriza de verdade a própria caminhada.

E começou assim: ”acho engraçado quererem saber do meu trajeto profissional, porque eu sempre digo que minha história contém mais fracassos do que sucessos. O resumo da minha vida é: quase tudo o que eu fiz deu errado até que uma deu certo e eu conquistei o lugar que estou hoje”.

Guarda isso. Já vou conectar tudo.

Tem uma passagem no livro “Coisa de rico - a vida dos endinheirados brasileiros”, do antropólogo merecidamente hypado Michel Alcoforado que compara o padrão do estado-unidense de valorizar a mítica self-made - que enfatiza a batalha para construir impérios capitalistas através de racionalização, preparo, organização, embasamento - com o padrão brasileiro que, diferentemente, exalta o glamour das conquistas.

E conquistar é muito diferente de construir. “Conquistar é adquirir algo que já existe”, diz o Alcoforado. É como se o lugar ao sol fosse para poucos, um lugar de privilégios, e você, brasileiro ambicioso, acreditasse que é preciso dominar esse espaço e uma vez dominado, esse “spot” iluminado e exclusivo te separaria do resto dos mortais.

Na minha leitura, o Michel vai além, e insere uma discreta alfinetada sobre meritocracia, afirmando que os brasileiros acreditam que esse lugar no pódium está igualmente à disposição de todos, mas apenas os corajosos, vorazes conquistadores conseguem chegar lá antes dos demais e por sua audácia, por seu faro oportunístico apurado, por sua  esperteza, merecem usufruir das regalias do topo.

Eu não sei se está na essência ou só no discurso, mas o que eu noto é que o nosso “homem cordial” (Sérgio Buarque de Holanda, procura aí) e a priorização da emoção, da garra e da malandragem estão muito presentes no comportamento dessa galera que faz de sua jornada empresarial um espetáculo.

O empresário que eu conversei (agora sim, a conexão), entendeu que a forma mais sexy de contar a história dele era dizer que fracassou muito, mas, no final, conquistou. “Chegou lá”.

Tem uma parada forte, interessante aqui. Meio que vinculada à cultura do "erro rápido" do Vale do Silício e essa coisa de romantizar o sufoco, ligado a ideia de que existe um “lá” único que está disponível para os mais ousados, para os que melhor fazem uso das suas “mesmas 24 horas”, junto com jovens-projeto-de-coach desdenhando da formação universitária, somado com a nossa brasileiríssima conexão com a criatividade, e com o lúdico momento do “estalo genial” que mudou tudo… Isso tem conexão com o fato de que o empreendedor brasileiro abafa sua capacidade estratégica.

Nós contamos a história da ideia brilhante que surgiu no banho, mas raramente falamos das 500 horas de análise de viabilidade que vieram depois, ou dos estudos que vieram antes. Exaltamos quem apaga o fogo com um balde furado, mas ignoramos todos os outros incêndios evitados por quem planejou o sistema de sprinklers.

Se o caminho foi planejado, linear e estratégico, ele parece frio. A pessoa calculista é, ao mesmo tempo, tediosa e maquiavélica. Para ter valor, a vitória precisa ter cara de milagre, de uma virada épica contra o destino. Só que absolutamente todos os empreendedores de sucesso, de fato construíram algo. É inevitável.

Segundo o CAGED, só no ano de 2025, os pequenos e médios negócios foram responsáveis por 80% dos novos postos de trabalho gerados no país - e isso é construção pura desde o início, é a prova de crescimento sustentável, de impacto social e econômico.

Aí essa pessoa empresária cola no podcast ou no painel do evento de inovação e, sabendo do contexto em que quase ninguém vê valor em estratégia, opta por esconder essa parte do seu caminho. O novo empreendedor, então, se inspira em histórias de sorte e sai em busca de um troféu, mas negligencia a fundação.

Em uma nação de carreiristas acomodados, isso faria pouca diferença. Não é o caso do Brasil. A edição 2025 do Monitor Global de Empreendedorismo, realizado pelo Sebrae em parceria com a Associação Nacional de Estudos e Pesquisas em Empreendedorismo (ANEGEPE), mostrou que metade da população adulta brasileira não empreendedora deseja abrir o próprio negócio em até 3 anos. São cerca de 47 milhões de indivíduos entre 18 e 64 anos. E, lá do outro lado dessa estrada, estão os 60% de empresas brasileiras que não sobrevivem após 5 anos de atividade, principalmente por falta de planejamento e gestão.

Estamos falando de um exército de pessoas bem intencionadas que vão cair no conto da conquista do pote de ouro, esquecendo que é preciso construir o próprio arco-íris.

Meu jeito de ver o mundo me leva a crer que só há ganhos em pensar um pouco mais e melhor antes de agir. Valorizar o embasamento estratégico. Ponderar. E dificilmente as pessoas discordam disso. 

Mas então onde está a vírgula, o porém? Será que ninguém se importa com construção e planejamento ou só ouvem falar pouco sobre isso? Se quisermos levar o empreendedorismo brasileiro a um patamar de crescimento estável, talvez precisemos mudar também as histórias que contamos sobre ele. Talvez o problema esteja em quem são os ídolos nesse campo. Talvez enaltecer mais o trabalho honesto e silencioso do que a performance de palco. Ou pode ser também que isso seja disrupção demais e eu esteja viajando.

 
 
 

Comentários


bottom of page